ENTRE RIOS, FLORESTAS E A EDUCAÇÃO INFANTIL NAS AMAZÔNIAS: experiências em um assentamento no Arquipélago do Marajó – Breves/PA
Educação Infantil; Educação das águas e das florestas; Crianças; Decolonialidade; Amazônias.
Esta dissertação desenvolvida no Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Federal do Amapá, vinculada à linha de pesquisa Educação, Culturas e Diversidades, consiste num estudo que trata sobre a educação infantil no contexto e na perspectiva da educação das águas e das florestas no Projeto de Assentamento Agroextrativista (PAE) Ilha do Corre, Escola Municipal de Educação Infantil e Ensino Fundamental Bom Pastor, Rio Itacoera, Breves/PA. Ao investigar as práticas pedagógicas no assentamento rural a partir das vivências, experiências e manifestações culturais das crianças inseridas na educação infantil, formulamos a seguinte questão norteadora: de que forma as vivências, as experiências e as práticas culturais das crianças são incorporadas nas práticas educativas da educação infantil das águas e das florestas da Escola Bom Pastor, no sentido de contemplar uma educação para Amazônia com base ao contexto regional? Para responder ao problema, o objetivo geral dessa pesquisa foi compreender o desenvolvimento das práticas educativas, para uma educação na Amazônia com base no contexto regional, que incorporem as vivências, as experiências e as práticas culturais das crianças do PAE Ilha do Corre, no município de Breves/PA. Quanto aos colaboradores da pesquisa, foram 21 crianças com idade de 4 a 6 anos de uma turma da Educação Infantil, 1 professora da educação infantil, 1 coordenador pedagógico, 1 barqueiro e 21 familiares dessas crianças da EMEI Bom Pastor. Para tanto, o procedimento metodológico utilizou o estudo de caso proposto por Yin (2001) como estratégia de pesquisa, com a abordagem qualitativa de Denzin e Lincoln (2006) e análise de conteúdo, Bardin (1977), tendo a decolonialidade como base epistemológica Quijano (2009) e Mota Neto (2015). Trata-se de uma investigação que teve como instrumento de coleta de dados a observação participante, a roda de conversa, oficina de desenhos, oficina de modelagem e natureza, contação de histórias e diálogo com as crianças e a comunidade; para tanto, os cuidados éticos foram adotados. A análise dos dados perpassa pelo remar metodológico que permite conexão com a natureza, com a comunidade, com a cultura e com o ambiente de vivência da pesquisa. A investigação revelou que as crianças ribeirinhas do Marajó possuem um conhecimento profundo sobre a floresta e os rios, expressando sua cultura e inteligência por meio de histórias, de desenhos, de modelagens e de brincadeiras próprias e que há uma tensão crônica entre o currículo hegemônico (BNCC e normativas municipais) e as vivências pulsantes das infâncias amazônicas, que tende a homogeneizar e urbanocentrizar as práticas educativas. Apesar disso, emergem práticas educativas de resistência e de territorialização, como o uso de materiais locais, narrativas regionais e rotinas que respeitam os tempos do rio, ao mesmo tempo em que se identifica um risco contemporâneo: o uso passivo de telas (YouTube) começando a disputar o lugar do brincar livre. Conclui-se que uma educação efetivamente voltada para a Amazônia exige reconhecer e colocar os saberes locais como pilares do currículo, promover formação docente continuada com perspectiva decolonial e orientar políticas públicas (Novo Pronacampo e ações municipais) para garantir recursos, infraestrutura e materiais contextualizados à Educação Infantil das águas e das florestas.