ESTRANHAMENTOS E RESISTÊNCIA: UMA ANÁLISE SOBRE RELAÇÕES (INTER)CULTURAIS DE INDÍGENAS DA EJA NUMA ESCOLA URBANA
Cultura. Cultura escolar. Estudantes indígenas. EJA. Interculturalidade.
Este trabalho analisa as relações (inter)culturais estabelecidas em uma turma da Educação de Jovens e Adultos (EJA) composta por estudantes indígenas Tiriyó e Kaxuyana e não-indígenas em uma escola pública de Macapá. A presença significativa de indígenas migrantes no corpo discente dinamiza as interações culturais e cria oportunidades para processos educativos interculturais. A investigação, de natureza qualitativa, fundamenta-se na fenomenologia e utiliza a pesquisa-ação (Thiollet, 1986) articulada com projetos interculturais escolares (Akkari e Santiago, 2024), visando responder ao problema: Como se manifestam as relações (inter)culturais entre jovens e adultos indígenas e não indígenas estudantes da EJA no contexto da cultura escolar urbana? A abordagem etnográfica (Geertz, 2008; Lüdke e André, 2022; André, 2005) – com uso de diário de campo, observação participante e escuta atenta – combinada à pesquisa-ação, permitiu uma descrição densa e detalhada da cultura escolar e de suas particularidades. Desenvolvida na Escola Estadual Predicanda Amorim Lopes, administrada pela Secretaria de Estado de Educação (SEED), a pesquisa mobilizou categorias analíticas como Interculturalidade (Walsh, 2009; Candau, 2012; 2019), Cultura e Multiculturalismo para refletir sobre a diversidade presente no espaço escolar. A EJA em contextos urbanos constituiu a modalidade investigada, incluindo-se uma discussão histórica e crítica sobre sua trajetória e o perfil diversificado de seu público no Amapá. Estudos sobre indígenas em escolas urbanas (Rezende, 2003; Morais, 2020; Serpa e Grando, 2019; Serpa, 2017) contextualizaram o fenômeno da migração para centros urbanos em busca de escolarização, sobretudo na Amazônia. Os achados indicam que as relações (culturais e interculturais) entre indígenas e não-indígenas na EJA amapaense ocorrem de forma heterogênea e oscilante, manifestando-se por meio de exclusão e inclusão, estereótipos, episódios de racismo e bullying, mas também por gestos de respeito, afeto e empatia. A escola, apesar da cultura excludente, apresenta tensões e é um espaço de disputas políticas e epistêmicas, assim, há alunos indígenas que entendem essa disputam, embora lidos com o essencialismo cultural (visões do indígena passivo ou guerreiro nacional) a cultura e sua dinâmica ensina meios de sobrevivência, eles manifestam isso através de resistências culturais. A escola pesquisada revela tentativas de inclusão permeadas por dinâmicas de folclorização e exotização. Mas que demonstrou que tem uma abertura intercultural (mesmo que funcional) para a diversidade. Por outro lado, a pesquisa-ação, com oficinas e aulas interculturais, corroborou possibilidades educativas plurais, dinâmicas, justas e democráticas, evidenciando que a educação intercultural pode concretizar-se como alternativa viável para romper com o cotidiano monocultural da escola de tradição colonizadora.