PERDAS, ABANDONOS E VAZIOS: A TRAJETÓRIA DA CONSTRUÇÃO DE SI DA PROTAGONISTA DE THE AUTOBIOGRAPHY OF MY MOTHER, DE JAMAICA KINCAID
Literatura caribenha; Memória; Pós-colonialismo; A Autobiografia da Minha Mãe; Jamaica Kincaid.
Esta pesquisa analisa como a protagonista Xuela Claudette Richardson, do romance The Autobiography of My Mother (1996), da escritora caribenha Jamaica Kincaid, (sobre)vive em um mundo marcado por perdas – da mãe Carib causada pela morte pós-parto e da terra/nação pela colonização britânica, e por ausências – do pai da elite creole através dos constantes abandonos, físico e afetivo, justificado pela hierarquização social estabelecida na Dominica do século XX, fruto dos processos coloniais. Assim, buscamos compreender não somente como essas perdas e abandonos moldaram a identidade da narradora protagonista, mas também se e
como ela reage a essas e outras violências oriundas da dinâmica colonialista materializadas nas relações estabelecidas também com outras personagens, todas elas marcadas pela desumanização, silenciamento e apagamento para com pessoas subalternizadas como Xuela. Para tanto, analisamos as representações das memórias da protagonista através da narração em primeira pessoa e focalização interna por meio de close reading e as articulamos com discussões oportunas. Concomitantemente à análise da (re)existência da protagonista perante as perdas, abandonos e outras relações colonialistas, os quais foram organizados em três capítulos temáticos conduzidos pela morte da mãe, pelos abandonos do pai e relações com outras personagens, e pela construção de paradigmas próprios em resposta aos vazios em sua formação identitária, realizamos contextualizações sociais, econômicas, políticas, linguísticas e históricas pertinentes às passagens analisadas, como em Pizarro (2004; 2005), Shields (2011), Paravisini-Gebert (2008) e Honychurch (1995), apresentamos conexões temáticas com estudos da fortuna crítica do romance, como em Abruna (2018), Adams (2006), West (2008), Gregg (2002), Holcomb e Holcomb (2002) e Simon (2005), estabelecemos diálogos teórico-críticos oportunos às temáticas discutidas, como memória em Bal (2021), escrita de si, traumas e identidades em Decaires Narain (2021), Hartman (2021) e Kilomba (2019), colonialismo e pós-colonialismo em Loomba (2005), colonialidades e decolonialidade em Lugones (2010; 2020) e Mignolo (2018), além de traçarmos paralelos temáticos com outros textos de Kincaid (1978; 1991; 2000). Dado o seu passado traumático e futuro incerto, Xuela é uma personagem que vive um presente contraditório com sentimentos e comportamentos contrastantes, assim como o título do romance, no qual as angústias convivem com a autoafirmação, o vazio provoca o autocontrole, ou seja, os traumas, sejam individuais ou histórico-coloniais, instigam a necessidade do exercício de poder constante sobre si e sobre as situações, frequentemente na forma de subversões de paradigmas sociais.