O PROCESSO HISTÓRICO DE INOVAÇÃO SOCIOECONÔMICO E AMBIENTAL NA
RESERVA EXTRATIVISTA DO CAJARI, AMAPÁ
Palavras-chave: Reserva Extrativista do Rio Cajari, inovações, agroextrativismo,
desenvolvimento sustentável, comunidades tradicionais.
A presente pesquisa analisou as inovações socioeconômicas e ambientais na Reserva Extrativista do Rio Cajari (RESEX-CA), no período de 1990 a 2024, a partir de um estudo de caso na comunidade de Água Branca do Alto Rio Cajari. Adotou-se uma abordagem metodológica mista (quali-quantitativa), com coleta de dados por meio de entrevistas semiestruturadas, observação direta e análise documental. Os resultados demonstraram que as inovações socioeconômicas e ambientais apresentam caráter incremental e adaptativo. Entre as principais inovações socioeconômicas identificadas destacam-se: a introdução de tecnologias acessíveis no transporte do ouriço da castanha, com a substituição progressiva do uso de animais por motocicletas; o fortalecimento e a reorganização comunitária por meio de associações e cooperativas ( AMOBIO e a ASTEX-CA) que atuam como mediadoras no acesso a políticas públicas, possibilitando a inserção da produção agroextrativista (castanha-do-brasil e roça) em programas institucionais de comercialização (PAA e PNAE); a introdução da internet via satélite (nos últimos cinco anos), possibilitando o uso do pix e maquinas de cartão de crédito. Nas inovações ambientais destacam-se: a manutenção da coleta da castanha-dobrasil a partir dos ouriços caídos naturalmente; a implementação da coleta pública de resíduos sólidos pela prefeitura, reduzindo práticas de queima e descarte inadequado; a adoção de fontes de energia limpa, como os sistemas de energia solar. No entanto, esse processo enfrenta desafios como: a dependência de atravessadores; dificuldades no acesso ao crédito; a fragilidade da infraestrutura básica no fornecimento de energia elétrica; ausência de abastecimento de água; acesso à internet limitado, comprometendo tanto as atividades produtivas quanto o acesso a serviços essenciais de saúde, educação. Somam-se, a fragilidades institucionais, as limitações na gestão das associações, carência de estrutura para o beneficiamento da castanha e deficiências nos serviços de saúde e educação, que limitam o avanço de inovações mais consistentes. Confirmou-se, parcialmente a hipótese ao evidenciar que fatores externos, como o acesso à internet, a energia elétrica e as melhorias na infraestrutura, têm efetivamente induzido inovações produtivas e organizacionais, promovendo pontuais eficiência econômica e diversificação das fontes de renda. Contudo, os resultados demonstram que esses fatores, isoladamente, não são suficientes. As transformações expressivas decorrem da mobilização social, do fortalecimento das lideranças locais e da atuação das mulheres. Conclui-se que o desenvolvimento sustentável na comunidade é construído “de baixo para cima”, sustentado pela articulação entre resistência histórica, conhecimento tradicional e inserção institucional. O estudo amplia a compreensão sobre como políticas públicas, tecnologias sociais e organização comunitária convergem para fortalecer o agroextrativismo amazônico.